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domingo, 22 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

O grito claro
publico.pt/2013/09/24/culturaipsilon/noticia


O grito claro 
De escadas insubmissas 
de fechaduras alerta 
de chaves submersas 
e roucos subterrâneos 
onde a esperança enlouqueceu 
de notas dissonantes 
dum grito de loucura 
de toda a matéria escura 
sufocada e contraída 
nasce o grito claro. 

António Ramos Rosa, Não posso adiar o coração, 
Col. Sagitário, Plátano Editora, 1974, 
(Obra poética de António Ramos Rosa, 1958-1973).

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

SONETO IMPERFEITO DA CAMINHADA PERFEITA
blogspot.pt/2013/12/homenagem-ao-poeta-sidonio-muralha


Já não há mordaças,nem ameaças,nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos...Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças,nem ameaças,nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Sidónio Muralha (1920 - 1982)

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Revolução 
http://blogs.odiario.com/inforgospel


Como casa limpa 
Como chão varrido 
Como porta aberta 

Como puro início 
Como tempo novo 
Sem mancha nem vício 

Como a voz do mar 
Interior de um povo 

Como página em branco 
Onde o poema emerge 

Como arquitectura 
Do homem que ergue 
Sua habitação 

Sophia de Mello Breyner Andresen, 
Obra Poética, Caminho, Lisboa, 1991

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Os medos 
https://www.diomedia.com/search/jose+cutileiro.html


É a medo que escrevo. A medo penso. 
A medo sofro e empreendo e calo. 
A medo peso os termos quando falo 
A medo me renego, me convenço 

A medo amo. A medo me pertenço. 
A medo repouso no intervalo 
De outros medos. A medo é que resvalo 
O corpo escrutador, inquieto, tenso. 

A medo durmo. A medo acordo. A medo 
Invento. A medo passo, a medo fico. 
A medo meço o pobre, meço o rico. 

A medo guardo confissão, segredo. 
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo. 
Que já me querem cego, surdo, mudo. 

José Cutileiro, Os medos, in Versos da mão esquerda, 1961.

sábado, 21 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

EU VI ESTE POVO A LUTAR
José Mário Branco


Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão

Sobre as águas calmas
Um vulcão de fogo
Toda a terra treme
Nas vozes deste povo

Mesmo no silêncio
Sabemos cantar
Povo por extenso
É unidade popular

Somos sete rios
Rios de certeza
Vamos lá cantando
No fragor da correnteza

Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão

A fruta está podre
Já não se remenda
Só bem cozidinha
No lume da contenda

Nós queremos trabalho
E casa decente
E carne do talho
E pão para toda a gente

Ai, meus ricos filhos
Tantos nove meses
Saem do meu ventre
Para a pança dos burgueses

Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão

Alça meu menino
Vê se te arrebitas
Que este peixe podre
Só é bom para os parasitas

Só a nosso mando
É que há liberdade
Vamos lá lutando
P’ra mudar a sociedade

Bandeira vermelha
Bem alevantada
Ai minha senhora
Que linda desfilada

Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão.


Letra e música: José Mário Branco

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício
Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Salgueiro Maia
portugalglorioso.blogspot.com

Ficaste na pureza inicial
Do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
Havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
Para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho incosquistado
Havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
Dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém

Trazendo a espada e a flor da liberdade.


Manuel Alegre, in País de Abril
Poema dedicado a Salgueiro Maia

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Tanto mar
Chico Buarque

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque


Letra original,vetada pela censura, no Brasil.
Gravação editada apenas em Portugal, em 1975

sexta-feira, 20 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

As Minhas Mãos
http://www.coletivoverde.com.


As minhas mãos estão cansadas
De construir as estradas
Sem nunca nelas viajar
As minhas mãos estão doridas
Estão pobres e feridas
Mas nunca as vi roubar.

Estas mãos de cinco dedos
Sabem montes de segredos
Que nunca podem contar

Já pegaram numa espingarda
Já vestiram uma farda
Que as obrigou a lutar.

As minhas mãos libertadas
Deram às Forças Armadas
Muitos cravos encarnados
E se o País precisar
Cá estão para ajudar
Todos os necessitados.

As minhas mãos sem anéis
São pobres, mas são fiéis
E sabem o seu dever.
Já sofreram, é verdade,
Mas hoje têm liberdade,
E o direito de escolher!


Michael Pereira, Toronto, Canadá

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Explicação do País de Abril
https://bernardomonteiro.com


País de Abril é o sítio do poema.
Não fica nos terraços da saudade
não fica nas longas terras. Fica exactamente aqui
tão perto que parece longe.

Tem pinheiros e mar tem rios
tem muita gente e muita solidão
dias de festa que são dias tristes às avessas
é rua e sonho é dolorosa intimidade.

Não procurem nos livros que não vem nos livros
País de Abril fica no ventre das manhãs
fica na mágoa de o sabermos tão presente
que nos torna doentes sua ausência.

País de Abril é muito mais que pura geografia
é muito mais que estradas pontes monumentos
viaja-se por dentro e tem caminhos veias
- os carris infinitos dos comboios da vida.

País de Abril é uma saudade de vindima
é terra e sonho e melodia de ser terra e sonho
território de fruta no pomar das veias
onde operários erguem as cidades do poema.

Não procurem na História que não ven na História.
País de Abril fica no sol interior das uvas
fica à distância de um só gesto os ventos dizem
que basta apenas estender a mão.

País de Abril tem gente que não sabe ler
os avisos secretos do poema.
Por isso é que o poema aprende a voz dos ventos
para falar aos homens do País de Abril.

Mais aprende que o mundo é do tamanho
que os homens queiram que o mundo tenha:
o tamanho que os ventos dão aos homens
quando sopram à noite no País de Abril.


Manuel Alegre
Praça da Canção