Bem-vindo ao Blogue das Bibliotecas Escolares do agrupamento da Maia!

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Um poema para começar o dia!

Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste, 
E torno mais real o rosto que te dou. 
Mostro aos olhos que não te desfigura 
Quem te desfigurou. 
Criatura da tua criatura, 
Serás sempre o que sou. 

E eu sou a liberdade dum perfil 
Desenhado no mar. 
Ondulo e permaneço. 
Cavo, remo, imagino, 
E descubro na bruma o meu destino 
Que de antemão conheço: 

Teimoso aventureiro da ilusão, 
Surdo às razões do tempo e da fortuna, 
Achar sem nunca achar o que procuro, 
Exilado 
Na gávea do futuro, 
Mais alta ainda do que no passado. 

Miguel Torga, in 'Diário X' 

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Um poema para começar o dia!

Retrato
Eugénio de Andrade


No teu rosto começa a madrugada.
luz abrindo,
de rosa em rosa,
transparente e molhada.


Melodia
distante mas segura;
irrompendo da terra,
quente, redonda, madura.


Mar imenso,
praia deserta, horizontal e calma.
Sabor agreste.
Rosto da minha alma.


Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa

segunda-feira, 23 de abril de 2018

23 de abril - DIA MUNDIAL do LIVRO

O Dia Mundial do Livro é comemorado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de Abril. Pretende anualmente promover o prazer da leitura e o respeito pelos livros e pelos seus autores.
Esta data foi escolhida com base na tradição catalã segundo a qual, neste dia, os homens oferecem às suas «damas» uma rosa vermelha de S. Jorge e recebem em troca um livro, testemunho das aventuras do cavaleiro. Em simultâneo, é prestada homenagem à obra de grandes escritores, como Shakespeare, Cervantes e Garcilaso de la Vega, falecidos em abril de 1616.
Em 2018, e porque se comemora o Ano Europeu do Património Culturala Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas quis relacionar a noção de património com o valor cultural e intemporal do Livro e da Leitura. 

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Elefante de Abril

A Revolução 
teve uma flor 
o cravo.
Não teve um animal 
e, como tal, 
proponho o elefante
tão paciente e sofredor 
durante tanto ano 
mas quando a paciência se esgotou
foi coisa de se ver 
violento 
eficaz 
empolgante. 
Depois, voltou a ser lento 
bom rapaz 
algo distante. 
Mas, atenção 
nunca se viu morrer um elefante! 

Carlos Pinhão, Bichos de Abril, 
Editorial Caminho, Lisboa, 1977

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Vai-se o canto vão-se as armas

Vai-se o canto vão-se as armas 
Não sei se as pedras andam 
Mas o meu país é pedra e anda. 
Desloca-se. Foge. 
Pula ribeiros nas pernas do povo. 
Salta fronteiras nas minhas pernas. Rasteja. 
Nada. Esconde-se. Atravessa 
montanhas. Desaparece. 
Disfarça-se. O meu país 
deixou de ser país. É 
qualquer coisa que caminha. 
Que se procura. Saudade 
de ser Pátria. País 
em movimento. País sem 
chão. Assim cortado 
pela raiz o meu país 
é feito de dois países: 
um é dono o outro não. 
Fica o dono e vai-se o outro. 
O que se fica tem tudo 
o que se vai nada tem: 
nem terra para ficar 
nem licença para ir. 

O meu país não é dono. 
Não tem licença de nada. 
País clandestino. Pedra 
ambulante. Chão que sangra. 
Que caminha. Pula 
ribeiros. Corre. Derrama-se. 
E vai-se com ele a força 
a guitarra a pena a foice. 
Vai-se o canto. Vão-se as armas. 

Manuel Alegre, «O Canto e as Armas», (1967) 
in Manuel Alegre. Trinta anos de poesia, 
Publicações D. Quixote. Lisboa, 1995

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Ser ou não ser carneiro 

Votava de cruz 
à ordem do pastor 
mas veio Abril 
e já começa a ter cor 
e já começa a saber 
o que quer 
e já começa a votar 
a pensar pela própria cabeça 
e não pela cabeça do parceiro. 
Em resumo já não é carneiro. 

Carlos Pinhão, Bichos de Abril, 
Editorial Caminho, Lisboa, 1977

domingo, 22 de abril de 2018

22 de abril - Dia da TERRA

Cortaram uma árvore
E a terra chorou

Cortaram outra árvore
E a terra chorou

E tantas árvores mais...

E a terra chorou
Chorar tanto também cansa
Quem pode enxugar as lágrimas
Da terra cansada?

Nem as mãos de uma criança...

Matilde Rosa Araújo, Fadas Verdes,
Porto, Liv. Civilização, 1994

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Mulheres de Abril
entrelinhasentregente.blogspot.pt


Mulheres de Abril
somos
mãos unidas

certeza já acesa
em todas
nós

Juntas formamos
fileiras
decididas

ninguém calará
a nossa
voz

Mulheres de Abril
somos
mãos unidas

na construção
operária
do país

Nos ventres férteis
a vontade
erguida

de um Portugal
que o povo
quis

Mulheres de Abril, Maria Teresa Horta 

em Poesia Reunida, p. 450

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Pedra Filosofal
Pseudónimo: António Gedeão


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam
como estas árvores que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que sonho
é vinho, é espuma, é fermento
bichinho alacre e sedento
de focinho pontiagudo
que fuça através de tudo
em perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela é cor é pincel
base, fuste, capitel
que é retorta de alquimista
mapa do mundo distante

Rosa dos Ventos Infante
caravela quinhentista
que é cabo da Boa-Esperança
Ouro, canela, marfim
florete de espadachim
bastidor, passo de dança
Columbina e Arlequim
passarola voadora
para-raios, locomotiva
barco de proa festiva
alto-forno, geradora
cisão do átomo, radar
ultrassom, televisão
desembarque em foguetão
na superfície lunar
Eles não sabem nem sonham
que o sonho comanda a vida
que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.

António Gedeão

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Canto Moço
Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara
Lá do cimo duma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo duma montanha
Onde o vento cortou amarras
Largaremos pela noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.


Zeca Afonso




"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

O grito claro
publico.pt/2013/09/24/culturaipsilon/noticia


O grito claro 
De escadas insubmissas 
de fechaduras alerta 
de chaves submersas 
e roucos subterrâneos 
onde a esperança enlouqueceu 
de notas dissonantes 
dum grito de loucura 
de toda a matéria escura 
sufocada e contraída 
nasce o grito claro. 

António Ramos Rosa, Não posso adiar o coração, 
Col. Sagitário, Plátano Editora, 1974, 
(Obra poética de António Ramos Rosa, 1958-1973).

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

SONETO IMPERFEITO DA CAMINHADA PERFEITA
blogspot.pt/2013/12/homenagem-ao-poeta-sidonio-muralha


Já não há mordaças,nem ameaças,nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos...Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças,nem ameaças,nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Sidónio Muralha (1920 - 1982)

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Revolução 
http://blogs.odiario.com/inforgospel


Como casa limpa 
Como chão varrido 
Como porta aberta 

Como puro início 
Como tempo novo 
Sem mancha nem vício 

Como a voz do mar 
Interior de um povo 

Como página em branco 
Onde o poema emerge 

Como arquitectura 
Do homem que ergue 
Sua habitação 

Sophia de Mello Breyner Andresen, 
Obra Poética, Caminho, Lisboa, 1991

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Os medos 
https://www.diomedia.com/search/jose+cutileiro.html


É a medo que escrevo. A medo penso. 
A medo sofro e empreendo e calo. 
A medo peso os termos quando falo 
A medo me renego, me convenço 

A medo amo. A medo me pertenço. 
A medo repouso no intervalo 
De outros medos. A medo é que resvalo 
O corpo escrutador, inquieto, tenso. 

A medo durmo. A medo acordo. A medo 
Invento. A medo passo, a medo fico. 
A medo meço o pobre, meço o rico. 

A medo guardo confissão, segredo. 
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo. 
Que já me querem cego, surdo, mudo. 

José Cutileiro, Os medos, in Versos da mão esquerda, 1961.

sábado, 21 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

EU VI ESTE POVO A LUTAR
José Mário Branco


Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão

Sobre as águas calmas
Um vulcão de fogo
Toda a terra treme
Nas vozes deste povo

Mesmo no silêncio
Sabemos cantar
Povo por extenso
É unidade popular

Somos sete rios
Rios de certeza
Vamos lá cantando
No fragor da correnteza

Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão

A fruta está podre
Já não se remenda
Só bem cozidinha
No lume da contenda

Nós queremos trabalho
E casa decente
E carne do talho
E pão para toda a gente

Ai, meus ricos filhos
Tantos nove meses
Saem do meu ventre
Para a pança dos burgueses

Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão

Alça meu menino
Vê se te arrebitas
Que este peixe podre
Só é bom para os parasitas

Só a nosso mando
É que há liberdade
Vamos lá lutando
P’ra mudar a sociedade

Bandeira vermelha
Bem alevantada
Ai minha senhora
Que linda desfilada

Eu vi este povo a lutar
Para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
Que levavam História na mão.


Letra e música: José Mário Branco

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício
Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Salgueiro Maia
portugalglorioso.blogspot.com

Ficaste na pureza inicial
Do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
Havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
Para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
Havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
Dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém

Trazendo a espada e a flor da liberdade.


Manuel Alegre, in País de Abril
Poema dedicado a Salgueiro Maia

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Tanto mar
Chico Buarque

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque


Letra original,vetada pela censura, no Brasil.
Gravação editada apenas em Portugal, em 1975

sexta-feira, 20 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

As Minhas Mãos
http://www.coletivoverde.com.


As minhas mãos estão cansadas
De construir as estradas
Sem nunca nelas viajar
As minhas mãos estão doridas
Estão pobres e feridas
Mas nunca as vi roubar.

Estas mãos de cinco dedos
Sabem montes de segredos
Que nunca podem contar

Já pegaram numa espingarda
Já vestiram uma farda
Que as obrigou a lutar.

As minhas mãos libertadas
Deram às Forças Armadas
Muitos cravos encarnados
E se o País precisar
Cá estão para ajudar
Todos os necessitados.

As minhas mãos sem anéis
São pobres, mas são fiéis
E sabem o seu dever.
Já sofreram, é verdade,
Mas hoje têm liberdade,
E o direito de escolher!


Michael Pereira, Toronto, Canadá

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Explicação do País de Abril
https://bernardomonteiro.com


País de Abril é o sítio do poema.
Não fica nos terraços da saudade
não fica nas longas terras. Fica exactamente aqui
tão perto que parece longe.

Tem pinheiros e mar tem rios
tem muita gente e muita solidão
dias de festa que são dias tristes às avessas
é rua e sonho é dolorosa intimidade.

Não procurem nos livros que não vem nos livros
País de Abril fica no ventre das manhãs
fica na mágoa de o sabermos tão presente
que nos torna doentes sua ausência.

País de Abril é muito mais que pura geografia
é muito mais que estradas pontes monumentos
viaja-se por dentro e tem caminhos veias
- os carris infinitos dos comboios da vida.

País de Abril é uma saudade de vindima
é terra e sonho e melodia de ser terra e sonho
território de fruta no pomar das veias
onde operários erguem as cidades do poema.

Não procurem na História que não ven na História.
País de Abril fica no sol interior das uvas
fica à distância de um só gesto os ventos dizem
que basta apenas estender a mão.

País de Abril tem gente que não sabe ler
os avisos secretos do poema.
Por isso é que o poema aprende a voz dos ventos
para falar aos homens do País de Abril.

Mais aprende que o mundo é do tamanho
que os homens queiram que o mundo tenha:
o tamanho que os ventos dão aos homens
quando sopram à noite no País de Abril.


Manuel Alegre
Praça da Canção

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"


Eu Sou Português Aqui

Adicionar legenda
Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abrilquando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

Eu sou português aqui!

José Fanha

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Juventude


É preciso avisar toda a gente
https://williandelima.wordpress.com

Dar notícia, informar, prevenir
Que por cada flor estrangulada
Há milhões de sementes a florir.

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
Engrossando a verdade corrente
duma força que nada a detenha.

É preciso avisar toda a gente
Que há fogo no meio da floresta
E que os mortos apontam em frente
O caminho da esperança que resta.

É preciso avisar toda a gente
Transmitindo este morse de dores
É preciso, imperioso e urgente
Mais flores, mais flores, mais flores.


Versos: João Apolinário
Música: Francisco Fanhais
Interpretação: Luís Cília

quinta-feira, 19 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Maria Faia

Eu não sei como te chamas
Zeca Afonso

Oh Maria Faia!
Nem que nome te hei-de eu pôr
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Cravo não, que tu és rosa
Oh Maria Faia!
Rosa não, que tu és flor
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Não te quero chamar cravo
Oh Maria Faia!
Que te estou a engrandecer,
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!
Chamo-te antes espelho
Oh Maria Faia!
Onde espero de me ver
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

O meu amor abalou
Oh Maria Faia!
Deu-me uma linda despedida,
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!
Abarcou-me a mão direita
Oh Maria Faia!
Adeus oh prenda querida
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Letra e música de Zeca Afonso

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Somos Livres

Ontem apenas
fomos a voz sufocada
dum povo a dizer não quero;
fomos os bobos-do-rei
mastigando desespero.
Uma gaivota voava, voava


Ontem apenas
fomos o povo a chorar
na sarjeta dos que, à força,
ultrajaram e venderam
esta terra, hoje nossa.

Uma gaivota voava, voava,
assas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

Uma papoila crescia, crescia,
grito vermelho
num campo qualquer.
Como ela somos livres,
somos livres de crescer.

Uma criança dizia, dizia
"quando for grande
não vou combater".
Como ela, somos livres,
somos livres de dizer.

Somos um povo que cerra fileiras,
parte à conquista
do pão e da paz.
Somos livres, somos livres,
não voltaremos atrás.


Letra e música de Ermelinda Duarte

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Cantiga para os que partem

Este parte, aquele parte
ominho.pt/hendaia-cidade-simbolica-da-emigracao-portuguesa

e todos, todos se vão
oh terra ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca, órfãos e órfãs
e campos de solidão
e mães que não têm filhos
filhos que não têm pais.

Corações que tens e sofrem
longas ausências mortais
viúvas de vivos-mortos
que ninguém consolará.

Versos: Rosália de Castro
Música: José Niza
Interpretação: António Bernardino

Cantiga Para os Que Partem

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

"Canções com História"

Cada canção, todas as canções têm uma história. É como uma espécie de bilhete de identidade: quem as criou, onde nasceram, quem as cantou, onde, quando e porquê.(...)
Muitas canções têm História, mas, também muitos poemas, feitos canção, criaram histórias que vale a pena cantar e contar.

É disto exemplo, o soneto de Luís de Camões, interpretado por José Mario Branco e música de Jean Sommer.

para ouvir AQUI!

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Ser livre é querer ir e ter um rumo


Ser livre é querer ir e ter um rumo
https://osegredo.com.br/ser-livre

e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado,amordaçado,em sangue,exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.


 Armindo Rodrigues (1904 - 1993)

quarta-feira, 18 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

AS MÃOS

Com mãos se faz a paz se faz a guerra
De Manuel Alegre 
Com mãos tudo se faz e se desfaz
Com mãos se faz o poema ─ e são de terra.
Com mãos se faz a guerra ─ e são a paz.



Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedra estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.



Manuel Alegre
O canto e as armas


terça-feira, 17 de abril de 2018

Ano Europeu do Património Cultural – 2018

www.unescoportugal.mne.pt/pt/noticias/ano-europeu-do-patrimonio-cultural-2018
"A Comissão Nacional da UNESCO participou no lançamento do Ano Europeu do Património Cultural – 2018, que teve lugar no Museu de Arte Popular de Lisboa, no dia 21 de setembro. Durante o evento ocorreu a mesa redonda "Património e Natureza".
2018 foi declarado o Ano Europeu do Património Cultural, com o objetivo de celebrar a diversidade e a riqueza do património cultural europeu e de sensibilizar os cidadãos para a História e valores europeus, de modo a promover o diálogo intercultural e a coesão social.
O evento pretende demonstrar as diferentes oportunidades oferecidas pelo património cultural, bem como os desafios que este enfrenta, nomeadamente as mudanças digitais, a pressão ambiental e física colocada sobre os locais de interesse cultural e ainda enfatizar o papel que este tem a nível económico e de estabelecimento e fortalecimento de relações entre entidades, através de iniciativas de valorização, proteção e reabilitação do património. (...)"

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

         E depois do adeus
https://vozdoseven1.blogs.sapo.pt

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós.
Letra de José  Niza
Interpretado por: Paulo de Carvalho

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"


Liberdade
anamargaridapalmeiraebomeeugosto.blogs.sapo.pt
Era ainda a voz da juventude
quando a liberdade entrou
pelo canto da boca

As mãos acariciavam o sonho
enquanto o cheiro cinzento das grades
evadia os ideais

Hoje
em busca da palavra
o novo Abril amotina-se
na memória

Informada
pelo preço do não ser
arde agora
a palavra
traída
sem ousar... falar!

Fernando Macias

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"


Livre

Não há machado que corte
http://olhares.sapo.pt/a-raiz-do-pensamentoler
A raiz ao pensamento
Não há morte para o vento
Não há morte

Se ao morrer o coração
Morresse a luz que lhe é querida
Sem razão seria a vida
Sem razão

Nada apaga a luz que vive
Num amor num pensamento
Porque é livre como o vento
Porque é livre.

Carlos de Oliveira, “O nosso amargo cancioneiro”

segunda-feira, 16 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

CHAMAVA-SE CATARINA
Cantar Alentejano (em memória de uma camponesa assassinada)

Chamava-se Catarina,
O Alentejo a viu nascer;
Serranas viram-na em vida,
https://www.meloteca.com/portugal-poesia-e-musica-alentejo

Baleizao a viu morrer.


Ceifeiras na manha fria
Flores na campa lhe vao pôr;
Ficou vermelha a campina
Do sangue que entao brotou.


Acalma o furor campina,
Que o teu pranto nao findou!
Quem viu morrer Catarina
Nao perdoa a quem matou.


Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si,
O Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti!


Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar;
O Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar!


Letra: António Vicente Campinas
Interpretado por Zeca Afonso